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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O que é ser homem?

Este texto foi retirado do Blog http://www.omachocado.wordpress.com/  do qual achei muito interessante a idéia vale a pena você dar uma olhadinha o tema é sugestivo.



O que é ser homem?


Ser homem hoje num centro urbano, é o mesmo que é entre os ianomanis ou o que era entre os bandeirantes da época colonial?
Não, não é.
Porque ser homem não é uma questão apenas biológica, as diferentes masculinidades se constróem conforme a sua cultura.
Ser homem é algo a ser conquistado pelo menino, é algo absorvido de uma expectativa social que já começa antes mesmo da escolha da cor das roupas do bebê, permeia seus brinquedos, seus podes e não-podes, seus heróis, seus esportes, seu estudo, seus amigos e suas paqueras, sua profissão, seu papel na família.
Uma expectativa social tão profunda que só percebemos a ponta de seu iceberg, mas que vai influenciar o que este homem vai poder desenvolver com esta mesma profundidade.
Por muito tempo, ao homem foi reservado o espaço do prover; à mulher coube o espaço do cuidar.
Ao homem coube o espaço fora de casa, de caçar, de construir, de produzir; à mulher o espaço do lar, de nutrir de comida e afeto, de educar, de se responsabilizar pelo outro.
E a mulher educou os meninos a desenvolver mais alguns sentimentos e as meninas outros. A expressão da raiva coube ao masculino por favorecer a agressividade necessária ao provedor, a expressão da ternura coube ao feminino por favorecer à nutrição e ao cuidado. Ao masculino coube o fazer, ao feminino coube o sentir. O menino nem mesmo aprendeu a reconhecer o que sente e poder falar sobre seus sentimentos.
Mas às culturas mudam, e as mulheres entram no mercado de trabalho, a automação progride, o capital internacional se desloca da produção para a especulação financeira gerando uma sociedade sem empregos. O trabalho se especializa tanto que o homem não conhece o que produz. O desemprego e o sub-emprego crescem, e com eles a crise de poder do homem que não consegue mais cumprir o papel que é dele esperado.
Sem ter desenvolvido uma capacidade de expressão emocional, faltam aos homens palavras para elaborar essa transformação. Sem palavras, sentindo-se ferido, ele uso o punho como defesa e se torna violento.
Mas qual tem sido o modelo do homem masculino? O machão.
O estereótipo do machão é centrado nos excessos: de sexo, atividade, velocidade, poder, etc. Ele é insensível, vingativo, arrogante, reservado, frio, prepotente, autoritário, rebelde, dominador, cínico, exibicionista, cheio de si, voltado para a ação em detrimento dos sentimentos, incapaz de controlar seus desejos. Sua valentia encobre o enorme medo que tem do desamparo, de aceitar a sua receptividade, de ter consciência da dor.
Em resumo, do homem se espera que ele seja desumano. Violentado na sua humanidade, o homem se volta violento.
Toda violência é prepotente. Toda prepotência é uma reação a uma impotência a ser escondida. Quando não há o poder real, no sentido de uma capacidade para realizar, surge o poder de dominação. Quem realmente pode, não necessita dominar.
Antes expulso do espaço da casa, o homem hoje está sendo expulso do próprio espaço social ao lhe ser subtraído o papel de provedor.
Seu refúgio? A ilusão. Ao invés de produzir realidades passa a consumir imagens.
Ao perder as disputas reais, busca um outro espaço onde possa vencê-las. Seus heróis, nos filmes de ação lutam por ele, nas novelas transam por ele, e os robôs produzem por ele carros na fábrica onde ele trabalhava. Ao menos assim ainda se sente inserido na sociedade, e como ela é rica e poderosa por trás das telas e vitrines. Mas ele luta sim, ontem destruiu todos os bandidos no vídeo-game, transa pelo disque-sexo e pela Internet, e algum dia ainda vai comprar aquele carro fantástico quando ganhar na sena.
Ao perder a sua força real, o homem de hoje retoca a sua imagem para não perder a pose; malha, mas hoje seus músculos não mais constroem, só servem para ele se exibir. Vive em um espaço tão virtual quanto o H de Homem.
Sua alternativa? Conquistar os espaços da realidade perdida: no lar, na intimidade do seu corpo, na expressão de sua emoção, na integração do seu afeto com sua sexualidade, qualquer que seja sua orientação sexual.
Surge um novo omem sem H que quer liberar a sua lágrima, poder dizer não na cama, ser tirado para dançar, receber flores, trocar fraldas, simbolizar seu órgão de amor mais por coisas gostosas do que por instrumentos de guerra (expressões extraídas do manifesto masculinista); em suma, resgatar o espaço de sua sensibilidade, descobrir que há um coração pulsante escondido sob esse peito.
Percebe que foi ele mesmo quem construiu este espaço social de uma frieza que agora o exclui, e que portanto pode alterá-lo.
Para reconquistá-lo só precisa do calor de seu próprio coração.

José Guilherme Couto de Oliveira
publicado no Jornal Nexos nº 8 – out/1999

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